04-02-11

 

Leia nesta edição:

- Dilma anuncia distribuição gratuita de remédios para hipertensão e diabete

- Anvisa quer reverter parecer sobre patentes

- Diretrizes médicas

- Cai índice de casos de dengue no país

- Mosquitos "vacinados" agem contra a dengue

- Remédio de graça. Só falta a prevenção

- População obesa dobrou em 3 décadas

Quinta-feira, 04.02.2011

O Estado de São Paulo

Dilma anuncia distribuição gratuita de remédios para hipertensão e diabete

Promessa de campanha, o programa Saúde Não Tem Preço é resultado de um acordo firmado entre o governo federal, a indústria e o varejo farmacêutico. Em troca do aumento do volume de vendas, os dois setores abrirão mão de parte de seus lucros

Por Lígia Formenti

A presidente Dilma Rousseff lançou ontem o primeiro programa com a sua marca, o Saúde Não Tem Preço. Promessa de campanha, prevê a distribuição gratuita de remédios para hipertensão e diabete nas farmácias conveniadas ao Aqui Tem Farmácia Popular.

Pelo cronograma, todos os 15 mil estabelecimentos ligados ao programa tercão até o dia 14 para oferecer os dez medicamentos, que, até ontem, eram vendidos no sistema de copagamento: o governo encarregava-se de pagar até 90% do preço do remédio e o paciente, o porcentual restante. Para adquirir os remédios, basta apresentar uma receita médica, o CPF e um documento com foto.

A medida foi anunciada em uma cerimônia concorrida, a primeira realizada no Palácio do Planalto desde a posse de Dilma. Segundo o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, o novo programa é fruto de um acordo do governo com indústria e setor do varejo farmacêutico. Em troca do aumento do volume de vendas, que já é esperado com o novo programa, indústria e varejo abrirão mão de parte dos lucros.

O orçamento do governo para esse programa é de R$ 470 milhões. Pelos cálculos do coordenador do departamento de Assistência Farmacêutica do Ministério da Saúde, José Miguel do Nascimento, a renúncia do setor privado será de cerca de R$ 100 milhões. "O governo não interferiu no formato dos acordos. Indústria, distribuidores e farmácias decidiram entre si qual a parcela que cada um renunciaria."


Nascimento afirma que as empresas ganham de outra forma: há expectativa de aumento na escala de venda. "Quando o comprador entra na farmácia leva também xampu e pasta de dente." O ministério não tem estimativa de qual será o aumento de venda nas farmácias conveniadas.

A medida anunciada por Dilma vai favorecer a compra de dez medicamentos, que estão no mercado em aproximadamente 400 apresentações. Padilha afirmou que um grupo de trabalho, destacado para acompanhar a implantação do programa, deverá avaliar a possibilidade de inclusão de outras drogas.

Durante seu discurso, a presidente vinculou o programa de distribuição gratuita de remédio com outra bandeira de seu governo: a erradicação da miséria. Para isso, apontou que 12% da renda da população mais pobre é consumida com remédios. Entre a parcela mais rica, esse percentual não chega a 2%.

A escolha de hipertensão e diabete também foi explicada pela presidente. Segundo ela, 33 milhões de brasileiros são hipertensos e 30% da população adulta que têm diabete ou hipertensão desconhece seu estado de saúde.

Fiscalização. Além do Saúde não Tem Preço, o governo apresentou medidas para tentar ampliar a fiscalização e o controle do programa. Entre elas, a instalação de um sistema para reduzir o risco de quebra de sigilo de informações dos pacientes e a criação de um cupom, com informações sobre o comprador, o estabelecimento e o médico que prescreveu os medicamentos e o cruzamento com o Sistema de Óbito do Ministério da Previdência.

Em 2010, o Tribunal de Contas da União (TCU) constatou que farmácias credenciadas no programa Aqui Tem Farmácia Popular venderam remédios para pelo menos 17.258 mortos. De acordo com a auditoria, feita por amostragem, o desvio foi de pelo menos R$ 1,7 milhão. Entre as falhas estavam a compra com o uso de CPFs de pessoas mortas.

DE GRAÇA

Princípio ativo dos remédios que serão distribuídos gratuitamente no programa Saúde Não Tem Preço:

Hipertensão

Captopril 25 mg, comprimido Maleato de enalapril 10 mg, comprimido
Cloridrato de propranolol 40 mg, comprimido
Atenolol 25 mg, comprimido Hidroclorotiazida 25 mg,comprimido
Losartana Potássica 50 mg
Diabete
Glibenclamida 5 mg, comprimido
Cloridrato de metformina 500 mg, comprimido
Cloridrato de metformina 850 mg, comprimido
Insulina Humana


O Estado de São Paulo

Anvisa quer reverter parecer sobre patentes


Por Lígia Formenti

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) vai tentar reverter pontos do parecer da Advocacia-Geral da União (AGU) que restringe a atuação da agência na concessão de patentes de medicamentos.

O diretor presidente em exercício da Anvisa, Dirceu Barbano, afirmou que inicia uma rodada de reuniões com os setores envolvidos, incluindo o Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi) e a AGU, para modificar pontos que, em sua avaliação, "fragilizam" o Brasil na área de medicamentos. "Temos de ser muito rigorosos na concessão da patente. Há questões de cunho de saúde que podem ajudar muito no debate."

Em janeiro, como revelou o Estado, a AGU divulgou um parecer final sobre uma briga que há anos se arrastava entre Anvisa e Inpi sobre as atribuições de cada instituição na avaliação de processos de patente de remédio. Até então, a Anvisa atuava como uma "revisora" dos processos aprovados pelo Inpi, o que irritava o instituto. A AGU restringiu os poderes da Anvisa: determinou que a agência só pode analisar aspectos de risco à saúde.

Anteontem, 15 ONGs apresentaram uma denúncia contra o Brasil na ONU, dizendo que a decisão viola obrigações internacionais em relação ao direito à saúde. O grupo argumenta que a Anvisa faz análises mais rígidas, impedindo a concessão de patentes indevidas. Algo que, na prática, abre caminho para produção de versões genéricas, mais baratas que as de marca.


Folha de São Paulo – Painel do Leitor

Diretrizes médicas

Por Carlos Alberto Pessoa Rosa, médico (Atibaia, SP)


Parece óbvio que pensar em diretrizes e saúde pública implica necessidade de neutralidade dos profissionais envolvidos na construção das condutas a serem assumidas pela classe médica. Mas, na prática, o que seria ético, para não dizer moral, permanece em terreno nebuloso. Não há como aceitar qualquer conflito de interesses entre diretrizes e laboratórios farmacêuticos. Laboratório lá e médicos cá seria uma boa premissa de relacionamento.


O Estado de São Paulo

Alerta sobre dengue será feito por meio de celular

Por Lígia Formenti, José Maria Tomazela e Brás Henrique

O celular será usado para combater a dengue no País. Em municípios considerados de alto risco, operadoras de telefonia deverão enviar para clientes mensagem de alerta sobre a doença.

O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, disse que a medida faz parte da estratégia do governo de envolver toda a sociedade na prevenção e no diagnóstico precoce de casos da doença.

O ministro citou preocupação com o atendimento dado pelas operadoras de saúde. O esforço do ministério é reforçar informações para que profissionais de saúde da rede de operadoras façam rapidamente o diagnóstico de pacientes com a infecção.

Interior paulista. Em janeiro foram confirmados oito casos de dengue em Sorocaba. Embora seis sejam importados, a Secretaria de Saúde reforçou o alerta para o risco de uma epidemia. Os casos foram registrados em bairros diferentes, nos quais há infestação do Aedes aegypti.

Em Ribeirão Preto, a Secretaria da Saúde confirmou mais 275 casos de dengue na cidade, neste ano. O município soma 452 casos.


Correio Braziliense

Cai índice de casos de dengue no país

Brasil registrou queda de 74% em janeiro deste ano, em comparação com o mesmo mês do ano passado. Em Brasília, a redução ficou na casa dos 64%. Há, porém, 16 estados em alerta de epidemia por terem risco considerado muito alto


Por Ana Elisa Santana

Depois de passar, em 2010, por uma das maiores epidemias de dengue dos últimos dez anos — o Ministério da Saúde estima que 1 milhão de pessoas tenham sido contaminadas entre janeiro e dezembro —, o número de casos da doença no Brasil caiu 74% no primeiro mês do ano. Segundo levantamento preliminar do ministério, foram registrados 26.034 casos em janeiro, menos de um terço dos 98.373 ocorridos no mesmo período do ano passado. No Distrito Federal, que em fevereiro passado declarou epidemia da doença, os registros também apontam queda. Dados divulgados pela Secretaria de Saúde do DF mostram que o índice de 2011 é 64% menor — o número caiu de 692, no ano passado, para 246.

Os números positivos podem passar a impressão de que a doença está controlada, mas não devem ser suficientes para tranquilizar a população. O país ainda tem 16 estados em alerta para o risco de epidemia por terem índice de transmissão muito alto — a capital do Acre, Rio Branco, já fala em situação de epidemia. Após a má experiência do ano passado, os governos federal, estaduais e municipais se preparam para evitar o avanço da doença entre fevereiro e março, época do ano em que geralmente há mais contaminações. “Não vamos esperar a epidemia chegar. Este ano nós começamos as ações em janeiro”, diz o secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, Jarbas Barbosa.

Em Itapoã — cidade a 30km de Brasília —, a situação encontrada nas ruas e terrenos abandonados está longe do recomendado para evitar a proliferação do mosquito Aedes aegypti, responsável pela transmissão da dengue. Pneus, baldes e entulho podem ser vistos em praticamente todas as calçadas das casas. A cidade concentrou 15% das ocorrências do DF nos dois primeiros meses de 2010, com famílias inteiras contaminadas. Este ano, no entanto, Itapoã não registrou casos da doença, segundo a Secretaria de Saúde.

O morador da cidade Geraldo Max Sousa, 40 anos, ficou internado por uma semana no Hospital Regional do Paranoá no início do ano passado. Quando ele e o filho de 14 anos adoeceram, a família morava em outra rua de Itapoã, em que vizinhos também foram contaminados. Passar pelos sintomas nada agradáveis da doença o fez ficar mais atento a possíveis focos. “Eu tento manter as coisas mais limpas, não deixar a água acumular”, conta o pedreiro, que acredita ter sido picado por mosquitos cultivados em caixas de gordura que não tinham tampa. “A gente vê essas coisas na televisão mas nunca acha que vão acontecer em casa. Agora eu sei que até uma tampinha de cerveja pode trazer a dengue”, diz Geraldo.

Uma reunião foi realizada em Itapoã ontem à tarde, segundo o coordenador de Prevenção e Controle da Dengue no DF, Ailton Domício, para definir estratégias de combate na cidade. “No sábado, vamos reiniciar o manejo ambiental, recolhimento de lixo e conscientização dos moradores. Tratamentos com produtos químicos começaram hoje e continuam no decorrer da semana”, afirma Domício.


O Distrito Federal sofre com a falta de profissionais de Vigilância Ambiental. Hoje há apenas 500 fiscais para visitar todas as cidades, quando o ideal para uma cidade com mais de 2,4 milhões de habitantes, de acordo com o recomendado pelo Ministério da Saúde, seriam pelo menos 1,2 mil. A Secretaria de Saúde recebe, desde o mês passado, o reforço de 50 militares da Marinha e da Aeronáutica, mas ainda aguarda apoio de 450 homens solicitados às Forças Armadas, além da liberação de um concurso público para contratar agentes. “Fizemos o trabalho de prevenção entre setembro e dezembro do ano passado, para ter condições mínimas de chegar aqui em uma posição mais confortável. A determinação é intensificar essas ações a partir de agora para conseguir manter o controle durante o ano”, explica o coordenador.

Celular
A partir de hoje, usuários de celular de todo o país passarão a receber dicas para se prevenir da dengue por mensagens SMS. Os torpedos serão enviados semanalmente, quando o Ministério da Saúde fecha o balanço de notificações, a municípios que registrarem alto índice de transmissão ou muitos casos graves. Propagandas na TV e no rádio e um site para tirar dúvidas também estão entre as ações de prevenção, resultado de um investimento de R$ 40 milhões do Ministério. O governo fez também parcerias com lideranças sindicais, religiosas e empresas, para evitar que o país perca novamente o controle da doença. “O ministro está visitando cada um dos 16 estados em risco, fazendo reuniões e analisando as estratégias”, diz o secretário Jarbas Barbosa.

Com jeito de gripe
A prioridade das campanhas contra a dengue este ano é fazer as pessoas entenderem a importância das ações para evitar o aparecimento de qualquer foco do Aedes aegypti. O descuido de vizinhos pode ter sido a causa dos maus momentos passados por Patrícia Mendonça, 21 anos. A estudante de biomedicina teve de enfrentar os sintomas da dengue em meados de janeiro. Com febre alta e muitas dores no corpo, ela procurou o médico, que inicialmente pensou ser uma gripe forte, mas pediu exames mais detalhados para diagnosticar a doença corretamente. Apesar de morar em um apartamento, ela acredita que tenha sido picada pelo mosquito no próprio prédio. “Alguns vizinhos têm vasos de plantas que podem ter facilitado o aparecimento do mosquito”, analisa a estudante.

O secretário de Vigilância em Saúde, Jarbas Barbosa, lembra que boa parte da população não tem o compromisso de reiniciar as ações de prevenção todos os anos, principalmente na época de chuvas, período favorável para proliferação de larvas. “A maioria já sabe o que fazer, mas acaba não tomando os devidos cuidados porque acha que o vizinho não contribui. Queremos desenvolver a cultura da mobilização contra o mosquito”, afirma. (AES)

Alvos da campanha
Uma portaria do Ministério da Saúde obriga, desde o fim de janeiro, estados e municípios a enviarem em até 24 horas notificações sobre casos graves e mortes suspeitas por dengue. Devem ser registrados diariamente, também, os casos da dengue tipo 4 (DENV 4). A atenção é reforçada em relação ao DENV 4 para evitar uma possível epidemia. “Uma vez que uma pessoa pega dengue, ela fica imune para o tipo de vírus que a contaminou. Como o tipo 4 nunca circulou no Brasil de forma ampla, ninguém está protegido”, explica a infectologista Valéria Paes Lima.
Crianças e adolescentes também são foco nas campanhas devido ao tipo 1 da doença, que segundo Jarbas Barbosa, volta a provocar a dengue no Brasil após 15 anos de aparições esporádicas. “Quem é mais novo está sujeito ao vírus, aumentam as chances de que os casos se tornem graves e resultem em mortes”, diz o secretário de Vigilância em Saúde.
Não há como identificar a diferença entre os dois tipos de dengue sem fazer exames laboratoriais. O recomendado pelos médicos é procurar um hospital assim que começarem os sintomas, até mesmo se a pessoa já tiver sido contaminada uma vez. “Quando alguém pega dengue pela segunda vez, a doença vem mais forte e crescem as chances de evolução para o quadro hemorrágico”, alerta a infectologista. (AES)

Correio Braziliense

Mosquitos "vacinados" agem contra a dengue

Pesquisadores usam micro-organismo achado na mosca-das-frutas para bloquear a transmissão do vírus no Aedes aegypti. Em 2010, doença atingiu 900 mil brasileiros


Por Paula Sarapu


Uma pesquisa desenvolvida pela Universidade de Queensland, em Brisbane, na Austrália, acena para a possibilidade de se controlar a transmissão do vírus da dengue. Quarenta cientistas do mundo inteiro participam do trabalho de microinjeção de embriões — que deixam o mosquito Aedes aegypti mais resistente à dengue e, portanto, dificultam a transmissão — e um brasileiro, de Belo Horizonte, acredita que o país também tenha potencial para desenvolver o estudo. Para o pesquisador do Laboratório de Malária do Centro de Pesquisas René Rachou da Fundação Oswaldo Cruz em Minas Gerais (CPqRR/Fiocruz), Luciano Andrade Moreira, a descoberta, aliada à conscientização da população, pode acabar com a epidemia de dengue no Brasil a médio e longo prazo.

Os estudos começaram há sei s anos, quando cientistas australianos decidiram injetar em ovos do Aedes aegypti a bactéria Wolbachia, encontrada nas moscas-das-frutas, as drosófilas. Só para conseguir introduzir a bactéria nos ovos foram quatro anos de testes. Os especialistas descobriram que a bactéria causava a morte prematura das drosófilas e o mesmo conceito foi aplicado ao mosquito transmissor da dengue. Assim, os pesquisadores conseguiram reduzir a longevidade do inseto infectado com a doença.

“ A ideia era fazer o mosquito morrer logo, para não transmitir o vírus da doença. Mas descobrimos outras implicações para a cadeia alimentar e o meio ambiente e, por isso, há dois anos, começamos a trabalhar com a bactéria de outra forma, apenas bloqueando a transmissão da dengue, sem que o mosquito precisasse morrer. É como se o mosquito fosse vacinado e ficasse resistente ao vírus”, explica o pesquisador do CPqRR/Fiocruz.

Dez mil ovos foram usados nos testes ao longo de seis anos, mas apenas duas larvas fêmeas conseguiram se tornar adultas e procriar. Segundo o cientista mineiro, toda a linhagem de mosquitos, a partir dessa geração, terá a bactéria em suas células e estará “protegida” da dengue. “Se esse projeto der certo, será suficiente. A partir do mosquito solto na natureza, a bactéria é transmitida mais facilmente, aumentando a prole protegida que invade a população. É um grande passo no combate à dengue e, com ações conjuntas, pode ser a salvação.”

O ciclo do mosquito não é longo. O Aedes aegypti demora 15 dias para se tornar adulto. Depois de cruzar, a fêmea pica o humano e suga o sangue para poder procriar, o que ocorre quatro ou cinco vezes ao longo de sua vida. De acordo com Luciano Andrade, cada fêmea põe cerca de 500 ovos em 30 dias, tempo médio de vida do inseto. Durante os estudos na Austrália, apenas 30% dos 10 mil ovos que receberam a bactéria Wolbachia nasceram. A maioria, segundo Luciano, estourava. Das larvas, porém, 90% não apresentavam a bactéria e muitas também ficavam estéreis.

Na segunda etapa da pesquisa, os especialistas escolheram dois subúrbios da cidade de Cairns, no Nordeste da Austrália, em localidades confinadas por canaviais e com casos de dengue. A partir de agora, a cada semana, por um período de 12 semanas seguidas, 10 insetos infectados com a bactéria serão soltos em cada uma das residências. Depois, é só esperar a dispersão dos mosquitos e a disseminação da infecção pela bactéria. “Já são 70 gerações de mosquitos com a bactéria. Agora estamos no processo de liberação desses insetos na natureza e, até o meio do ano que vem, já teremos resultados”, acredita.

A concepção e o desenvolvimento do projeto custaram US$ 18 milhões. Na Austrália, país que não tem epidemias de dengue, são apenas mil casos por ano — o Brasil registrou cerca de 900 mil casos em 2010.

Exportação
Alguns mosquitos “vacinados” seguem em setembro para o Vietnã, país que se assemelha ao Brasil em números de casos, guardadas as proporções do tamanho do território e da população. O pesquisador da Fiocruz Minas Luciano Andrade Moreira já solicitou ao Ibama autorização para trazer ao Brasil mosquitos infectados com a bactéria Wolbachia. Ele aguarda a decisão para dar início aos estudos de laboratório. Em 2011, os cientistas vão desenvolver o mesmo trabalho na Tailândia.

Luciano é engenheiro agrônomo e doutor em genética. Ele foi convidado a participar das pesquisas por dois anos e meio, em seu pós-doutorado, e voltou ao Brasil em janeiro, com a expectativa de conseguir desenvolver o trabalho e apresentar a sugestão ao Ministério da Saúde, por intermédio da Fiocruz. “Nosso país tem um grande potencial para desenvolver essa pesquisa, mas precisamos avançar muito ainda.”

O cientista mineiro destaca os desafios de se desenvolver o estudo no Brasil. “Precisamos fazer estudos em laboratório, que devem demorar pelo menos dois anos, e pedir autorização do Ministério da Saúde para as outras fases do projeto”, diz. “O Aedes aegypti não é encontrado infectado na natureza. Por isso, é preciso avaliar o impacto ambiental e viabilizar um lugar no país para a liberação desses insetos com a bactéria. Precisa ser um local que não tenha muitos casos de dengue, que seja mais isolado e não registre migração de pessoas. Também precisamos da aceitação da população, da aprovação das autoridades e de financiamento. O estudo é só o ponto de partida”, afirma o pesquisador.

PARA SABER MAIS
Mortes aumentam

Em 2010, as vítimas da dengue dobraram no país. Em relação ao ano anterior, houve um aumento de 89,7% no número de casos, de acordo com resultado parcial do Levantamento de Índice Rápido de Infestação por Aedes aegypti 2010, divulgado em novembro. De janeiro até 16 outubro, foram registrados 936.260 casos contra 489.819 no ano passado. No mesmo período, a doença levou à morte 592 pessoas. Em 2009, foram 312 casos fatais.

Para Luciano Andrade, ainda que o projeto dê certo, não se pode descartar o uso do inseticida, as campanhas sociais de educação da população e até a criação de uma vacina contra a dengue.


Correio Braziliense

Remédio de graça. Só falta a prevenção

Presidente Dilma Rousseff anuncia a liberação, a custo zero, de medicamentos para hipertensão e diabetes, mas especialistas alertam também para a conscientização da população

Por Leandro Kleber / Juliana Boechat

Com o anúncio de que os medicamentos contra hipertensão e diabetes serão distribuídos gratuitamente pelo governo no programa Aqui Tem Farmácia Popular, os 960 mil usuários cadastrados no projeto, que antes pagavam 10% do valor dos remédios, agora não desembolsarão nada. A presidente Dilma Rousseff e o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, anunciaram a medida ontem, no Palácio do Planalto, e também comemoraram a marca de 15 mil estabelecimentos credenciados em todo o país onde os remédios serão distribuídos. A promessa é que as farmácias serão mais fiscalizadas para evitar desvios e abusos. Especialistas elogiam a medida, mas lembram que é preciso haver mais campanhas de conscientização sobre como agir ao descobrir as doenças.

Para ter acesso aos remédios, os usuários deverão apresentar documento com foto, CPF e receita médica de um profissional do Sistema Único de Saúde (SUS) ou de um médico particular no balcão da farmácia conveniada. As medidas deverão ser implementadas pelos estabelecimentos cadastrados até o próximo dia 14, período concedido para adaptação dos sistemas de vendas.

De acordo com o Ministério da Saúde, o programa tem um orçamento de R$ 470 milhões e beneficia ao todo 1,3 milhão de brasileiros. “Esse compromisso (gratuidade dos remédios) não terá nenhum custo adicional ao ministério. Convencemos o setor privado de que era importante reduzir as margens de lucro. Foi possível fazer esse grande acordo”, disse Padilha. O ministro aproveitou o evento para destacar a presença do governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz (PT). “Eu acredito muito, inclusive, que o governador Agnelo Queiroz vai colocar a saúde em ordem em Brasília. Nós seremos parceiros nisso. Desde o primeiro dia do seu governo ele já nos procurou no Ministério da Saúde e começamos a construir parcerias, por exemplo, para agilizar a execução das UPAS no DF.”

Com exceção dos medicamentos para diabetes e hipertensão, que a partir de agora passam a ser gratuitos, o governo federal financia 90% do valor de referência dos outros medicamentos no Aqui Tem Farmácia Popular, que incluem mais cinco doenças (asma, rinite, mal de Parkinson, osteoporose e glaucoma), além de fraldas geriátricas.

Dilma ressaltou que os medicamentos são o item de maior peso no bolso das famílias mais humildes. Segundo ela, 12% da renda da população mais pobre são gastos com remédios, enquanto nas camadas com poder aquisitivo maior a mesma despesa representa 1,7%. “Não podíamos admitir que esse ônus de origem social colocasse em risco a vida de portadores pobres de disfunções para as quais a medicina já tem tratamento seguro e garantido.”

O diretor de relações governamentais da Associação Diabetes Juvenil (ADJ Brasil), Sérgio Metzger, lembrou que não adianta apenas distribuir o medicamento de graça. Segundo ele, é preciso conscientizar a população sobre como usar os medicamentos e, especialmente, em relação à prevenção.

Assim que acabou o evento, a presidente Dilma Rousseff fez uma rápida avaliação sobre seu primeiro mês de governo: “Eu acho que o primeiro mês foi de muito trabalho e acredito que é uma indicação da quantidade de trabalho que eu tenho nos próximos”, comentou.

Encerrada a solenidade, o governador Agnelo Queiroz prometeu ampliar a quantidade de farmácias credenciadas para distribuição de remédios aos pacientes da rede pública da capital. Atualmente, há 288 estabelecimentos autorizados a entregar os medicamentos gratuitamente à população. “A hipertensão e a diabetes são patologias que atingem uma grande quantidade de pessoas que necessitam da farmácia popular. Nada mais justo expandir a gratuidade dos medicamentos”, defendeu. O petista acredita que, com a expansão da rede autorizada, os pacientes poderão buscar o auxílio perto de casa.


Agnelo não detalhou como será feita a ampliação do sistema no Distrito Federal. Mas, segundo ele, o projeto sairá do papel com ajuda de parcerias nacionais. Desde que assumiu o Executivo local, o petista se reuniu duas vezes com Padilha para pedir recursos ao GDF. “Além de unidades exclusivas da farmácia popular, também vamos colocar postos dentro da rede privada de hospitais. Hoje, são poucas farmácias espalhadas pelas cidades do DF”, avaliou.


Folha de São Paulo

População obesa dobrou em 3 décadas

Mundo já tem meio bilhão de pessoas gordas demais, mostra pesquisa que envolveu 199 países e territórios

EUA puxam a alta no mundo desenvolvido; no Brasil, níveis de massa corporal também estão aumentando


Por Débora Mismetti (editora-assistente de saúde)

Com os Estados Unidos liderando a tendência, a obesidade no mundo dobrou entre 1980 e 2008, de acordo com uma pesquisa global publicada hoje no "Lancet".

Há 31 anos, 4,8% dos homens e 7,9% das mulheres tinham índice de massa corporal acima de 30, o que configura obesidade.

Três anos atrás, 9,8% dos homens e 13,8% das mulheres já tinham passado dessa marca. Assim, mais de um adulto, em cada grupo de dez, está obeso.

O estudo, conduzido por pesquisadores do Imperial College London e de Harvard, com apoio da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Fundação Bill e Melinda Gates, é dividido em três partes: obesidade, pressão arterial e colesterol.

Foram pesquisados dados de 199 países e territórios, desde 1980 até 2008.

O Brasil acompanhou a tendência de alta da proporção de gordos.

A China também é destaque, com aumento do índice de massa principalmente entre os homens.

MENOS SONO
Apesar de os hábitos alimentares terem muito a ver com isso, os processos de urbanização e automatização têm culpa maior, segundo o endocrinologista Bruno Geloneze, coordenador do laboratório de metabolismo e diabetes da Unicamp.

" O gasto energético foi muito reduzido. Não precisa ir muito longe. Sua bisavó, quando tomava suco, espremia a laranja. Hoje, é só abrir a geladeira."

Outra questão importante é a privação de sono. De acordo com Geloneze, de 50 anos para cá, o mundo está dormindo duas horas a menos por noite, o que tem ligação direta com o peso.

" Há uma desregulação do gasto energético, da produção de hormônios da saciedade e uma ativação da glândula suprarrenal, que faz adrenalina e cortisol. Tudo isso facilita o ganho de peso", diz o endocrinologista.

Os Estados Unidos, país que liderou a alta da obesidade, vem tentando atacar o problema com incentivos à alimentação saudável e à prática de exercícios.

De acordo com Geloneze, essas medidas são mal orientadas, porque dão peso muito grande para alimentação e esportes. "Não pode algo pró-esporte. As atividades físicas não programadas, como deslocamentos, pesam mais. O importante é que as cidades permitam que a pessoa ande de bicicleta, a pé."

O consumo de alimentos processados e a ocidentalização da dieta dos orientais contribuem para o fenômeno. O mundo está abandonando a comida in natura em favor da processada, com densidade de calorias muito maior.

A dificuldade de combater o ganho de peso é maior do que a enfrentada na redução de hipertensão e colesterol, que podem ser mais facilmente controlados com medicamentos. "A obesidade envolve consumo alimentar, muito ligado à emoção e estilo de vida. Não há pílula mágica para tratar isso."

ANÁLISE

É preciso reverter a tendência para aumentar a longevidade

Por Ricardo Meirelles, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia e professor de endocrinologia da PUC-RJ

ESPECIAL PARA A FOLHA

Já tínhamos conhecimento de que o excesso de peso e a obesidade tornam-se mais frequentes no mundo, mas não havia ainda uma pesquisa que apresentasse dados coletados de tantos países -e com uma análise evolutiva de quase 30 anos. Embora o IMC (índice de massa corporal) não seja o único nem o melhor indicador, é o mais utilizado em avaliações de grandes amostras, pela facilidade de sua determinação e sua associação com doenças ligadas ao excesso de adiposidade.

A constatação de que o IMC aumenta a cada década é preocupante porque pode significar o aumento do risco de mortalidade por diabetes e suas complicações, doenças cardiovasculares e certos tipos de câncer.

É interessante notar que, embora haja aumento da prevalência de obesidade e, portanto, da mortalidade a ela associada, a expectativa de vida tende a crescer na maioria dos países. Significa que outras causas de mortalidade estão diminuindo. Se conseguirmos evitar o avanço da obesidade, teremos um aumento maior ainda da longevidade das populações.

Com exceção dos homens da África Central e do sul da Ásia, pessoas de todas as regiões do planeta registraram aumentos do IMC.

Isso talvez se deva ao maior acesso a alimentos e à diminuição de atividade física, ocasionada pela disseminação do uso de máquinas para fazer trabalhos antes manuais e a melhoria do transporte. Possivelmente, também, reflete uma globalização dos hábitos alimentares. Um exemplo é a presença de cadeias de fast food em todos os continentes. Houve grandes diferenças na variação de IMC entre diversas regiões e entre os sexos. O estudo dessas diferenças geográficas, econômicas e culturais pode ser útil na elaboração de políticas de saúde voltadas à prevenção.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 
 
 
 
 





 
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