Leia
nesta edição:
- Dilma anuncia
distribuição gratuita de remédios
para hipertensão e diabete
- Anvisa quer reverter parecer sobre patentes
- Diretrizes médicas
- Cai índice de casos de dengue no país
-
Mosquitos "vacinados" agem
contra a dengue
- Remédio de graça. Só falta a prevenção
- População obesa dobrou em 3 décadas
Quinta-feira, 04.02.2011
O
Estado de São
Paulo
Dilma anuncia distribuição gratuita de remédios
para hipertensão e diabete
Promessa de campanha, o programa Saúde Não Tem
Preço é resultado de um acordo firmado entre o
governo federal, a indústria e o varejo farmacêutico.
Em troca do aumento do volume de vendas, os dois setores abrirão
mão de parte de seus lucros
Por Lígia Formenti
A presidente Dilma Rousseff lançou ontem o primeiro programa
com a sua marca, o Saúde Não Tem Preço.
Promessa de campanha, prevê a distribuição
gratuita de remédios para hipertensão e diabete
nas farmácias conveniadas ao Aqui Tem Farmácia
Popular.
Pelo cronograma, todos os 15 mil estabelecimentos ligados ao
programa tercão até o dia 14 para oferecer os dez
medicamentos, que, até ontem, eram vendidos no sistema
de copagamento: o governo encarregava-se de pagar até 90%
do preço do remédio e o paciente, o porcentual
restante. Para adquirir os remédios, basta apresentar
uma receita médica, o CPF e um documento com foto.
A medida foi anunciada em uma cerimônia concorrida, a primeira
realizada no Palácio do Planalto desde a posse de Dilma.
Segundo o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, o novo
programa é fruto de um acordo do governo com indústria
e setor do varejo farmacêutico. Em troca do aumento do
volume de vendas, que já é esperado com o novo
programa, indústria e varejo abrirão mão
de parte dos lucros.
O orçamento do governo para esse programa é de
R$ 470 milhões. Pelos cálculos do coordenador do
departamento de Assistência Farmacêutica do Ministério
da Saúde, José Miguel do Nascimento, a renúncia
do setor privado será de cerca de R$ 100 milhões. "O
governo não interferiu no formato dos acordos. Indústria,
distribuidores e farmácias decidiram entre si qual a parcela
que cada um renunciaria."
Nascimento afirma que as empresas ganham de outra forma:
há expectativa
de aumento na escala de venda. "Quando o comprador entra
na farmácia leva também xampu e pasta de dente." O
ministério não tem estimativa de qual será o
aumento de venda nas farmácias conveniadas.
A medida anunciada por Dilma vai favorecer a compra de dez
medicamentos, que estão no mercado em aproximadamente 400 apresentações.
Padilha afirmou que um grupo de trabalho, destacado para acompanhar
a implantação do programa, deverá avaliar
a possibilidade de inclusão de outras drogas.
Durante seu discurso, a presidente vinculou o programa de distribuição
gratuita de remédio com outra bandeira de seu governo:
a erradicação da miséria. Para isso, apontou
que 12% da renda da população mais pobre é consumida
com remédios. Entre a parcela mais rica, esse percentual
não chega a 2%.
A escolha de hipertensão e diabete também foi explicada
pela presidente. Segundo ela, 33 milhões de brasileiros
são hipertensos e 30% da população adulta
que têm diabete ou hipertensão desconhece seu estado
de saúde.
Fiscalização. Além do Saúde não
Tem Preço, o governo apresentou medidas para tentar ampliar
a fiscalização e o controle do programa. Entre
elas, a instalação de um sistema para reduzir o
risco de quebra de sigilo de informações dos pacientes
e a criação de um cupom, com informações
sobre o comprador, o estabelecimento e o médico que prescreveu
os medicamentos e o cruzamento com o Sistema de Óbito
do Ministério da Previdência.
Em 2010, o Tribunal de Contas da União (TCU) constatou
que farmácias credenciadas no programa Aqui Tem Farmácia
Popular venderam remédios para pelo menos 17.258 mortos.
De acordo com a auditoria, feita por amostragem, o desvio foi
de pelo menos R$ 1,7 milhão. Entre as falhas estavam a
compra com o uso de CPFs de pessoas mortas.
DE GRAÇA
Princípio ativo dos remédios que serão distribuídos
gratuitamente no programa Saúde Não Tem Preço:
Hipertensão
Captopril 25 mg, comprimido Maleato de enalapril 10 mg, comprimido
Cloridrato de propranolol 40 mg, comprimido
Atenolol 25 mg, comprimido Hidroclorotiazida 25 mg,comprimido
Losartana Potássica 50 mg
Diabete
Glibenclamida 5 mg, comprimido
Cloridrato de metformina 500 mg, comprimido
Cloridrato de metformina 850 mg, comprimido
Insulina Humana
O Estado de São Paulo
Anvisa quer reverter parecer sobre patentes
Por Lígia Formenti
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária
(Anvisa) vai tentar reverter pontos do parecer da Advocacia-Geral
da União (AGU) que restringe a atuação da
agência na concessão de patentes de medicamentos.
O diretor presidente em exercício da Anvisa, Dirceu Barbano,
afirmou que inicia uma rodada de reuniões com os setores
envolvidos, incluindo o Instituto Nacional de Propriedade Industrial
(Inpi) e a AGU, para modificar pontos que, em sua avaliação, "fragilizam" o
Brasil na área de medicamentos. "Temos de ser muito
rigorosos na concessão da patente. Há questões
de cunho de saúde que podem ajudar muito no debate."
Em janeiro, como revelou o Estado, a AGU divulgou um parecer
final sobre uma briga que há anos se arrastava entre Anvisa
e Inpi sobre as atribuições de cada instituição
na avaliação de processos de patente de remédio.
Até então, a Anvisa atuava como uma "revisora" dos
processos aprovados pelo Inpi, o que irritava o instituto. A
AGU restringiu os poderes da Anvisa: determinou que a agência
só pode analisar aspectos de risco à saúde.
Anteontem, 15 ONGs apresentaram uma denúncia contra o
Brasil na ONU, dizendo que a decisão viola obrigações
internacionais em relação ao direito à saúde.
O grupo argumenta que a Anvisa faz análises mais rígidas,
impedindo a concessão de patentes indevidas. Algo que,
na prática, abre caminho para produção de
versões genéricas, mais baratas que as de marca.
Folha de São Paulo – Painel do Leitor
Diretrizes
médicas
Por Carlos Alberto Pessoa Rosa, médico (Atibaia,
SP)
Parece óbvio que pensar em diretrizes e saúde pública
implica necessidade de neutralidade dos profissionais envolvidos
na construção das condutas a serem assumidas pela
classe médica. Mas, na prática, o que seria ético,
para não dizer moral, permanece em terreno nebuloso. Não
há como aceitar qualquer conflito de interesses entre
diretrizes e laboratórios farmacêuticos. Laboratório
lá e médicos cá seria uma boa premissa
de relacionamento.
O Estado de São Paulo
Alerta sobre dengue será feito por meio de celular
Por Lígia Formenti, José Maria Tomazela e Brás
Henrique
O celular será usado para combater a dengue no País.
Em municípios considerados de alto risco, operadoras de
telefonia deverão enviar para clientes mensagem de alerta
sobre a doença.
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, disse que a medida
faz parte da estratégia do governo de envolver toda a
sociedade na prevenção e no diagnóstico
precoce de casos da doença.
O ministro citou preocupação com o atendimento
dado pelas operadoras de saúde. O esforço do ministério é reforçar
informações para que profissionais de saúde
da rede de operadoras façam rapidamente o diagnóstico
de pacientes com a infecção.
Interior paulista. Em janeiro foram confirmados oito
casos de dengue em Sorocaba. Embora seis sejam importados,
a
Secretaria de Saúde reforçou o alerta para o risco de uma
epidemia. Os casos foram registrados em bairros diferentes, nos
quais há infestação do Aedes aegypti.
Em Ribeirão Preto, a Secretaria da Saúde confirmou
mais 275 casos de dengue na cidade, neste ano. O município
soma 452 casos.
Correio Braziliense
Cai índice de casos de dengue no país
Brasil registrou queda de 74% em janeiro deste ano, em
comparação
com o mesmo mês do ano passado. Em Brasília, a redução
ficou na casa dos 64%. Há, porém, 16
estados em alerta de epidemia por terem risco considerado
muito
alto
Por Ana Elisa Santana
Depois de passar, em 2010, por uma das maiores epidemias
de dengue dos últimos dez anos — o Ministério da Saúde
estima que 1 milhão de pessoas tenham sido contaminadas
entre janeiro e dezembro —, o número de casos da
doença no Brasil caiu 74% no primeiro mês do ano.
Segundo levantamento preliminar do ministério, foram registrados
26.034 casos em janeiro, menos de um terço dos 98.373
ocorridos no mesmo período do ano passado. No Distrito
Federal, que em fevereiro passado declarou epidemia da doença,
os registros também apontam queda. Dados divulgados pela
Secretaria de Saúde do DF mostram que o índice
de 2011 é 64% menor — o número caiu
de 692, no ano passado, para 246.
Os números positivos podem passar a impressão de
que a doença está controlada, mas não devem
ser suficientes para tranquilizar a população.
O país ainda tem 16 estados em alerta para o risco de
epidemia por terem índice de transmissão muito
alto — a capital do Acre, Rio Branco, já fala em
situação de epidemia. Após a má experiência
do ano passado, os governos federal, estaduais e municipais se
preparam para evitar o avanço da doença entre fevereiro
e março, época do ano em que geralmente há mais
contaminações. “Não vamos esperar
a epidemia chegar. Este ano nós começamos as ações
em janeiro”, diz o secretário de Vigilância
em Saúde do Ministério da Saúde,
Jarbas Barbosa.
Em Itapoã — cidade a 30km de Brasília —,
a situação encontrada nas ruas e terrenos abandonados
está longe do recomendado para evitar a proliferação
do mosquito Aedes aegypti, responsável pela transmissão
da dengue. Pneus, baldes e entulho podem ser vistos em praticamente
todas as calçadas das casas. A cidade concentrou 15% das
ocorrências do DF nos dois primeiros meses de 2010, com
famílias inteiras contaminadas. Este ano, no entanto,
Itapoã não registrou casos da doença, segundo
a Secretaria de Saúde.
O morador da cidade Geraldo Max Sousa, 40 anos, ficou
internado por uma semana no Hospital Regional do Paranoá no início
do ano passado. Quando ele e o filho de 14 anos adoeceram, a
família morava em outra rua de Itapoã, em que vizinhos
também foram contaminados. Passar pelos sintomas nada
agradáveis da doença o fez ficar mais atento a
possíveis focos. “Eu tento manter as coisas mais
limpas, não deixar a água acumular”, conta
o pedreiro, que acredita ter sido picado por mosquitos cultivados
em caixas de gordura que não tinham tampa. “A gente
vê essas coisas na televisão mas nunca acha que
vão acontecer em casa. Agora eu sei que até uma
tampinha de cerveja pode trazer a dengue”, diz
Geraldo.
Uma reunião foi realizada em Itapoã ontem à tarde,
segundo o coordenador de Prevenção e Controle da
Dengue no DF, Ailton Domício, para definir estratégias
de combate na cidade. “No sábado, vamos reiniciar
o manejo ambiental, recolhimento de lixo e conscientização
dos moradores. Tratamentos com produtos químicos começaram
hoje e continuam no decorrer da semana”, afirma Domício.
O Distrito Federal sofre com a falta de profissionais
de Vigilância
Ambiental. Hoje há apenas 500 fiscais para visitar todas
as cidades, quando o ideal para uma cidade com mais de 2,4 milhões
de habitantes, de acordo com o recomendado pelo Ministério
da Saúde, seriam pelo menos 1,2 mil. A Secretaria de Saúde
recebe, desde o mês passado, o reforço de 50 militares
da Marinha e da Aeronáutica, mas ainda aguarda apoio de
450 homens solicitados às Forças Armadas, além
da liberação de um concurso público para
contratar agentes. “Fizemos o trabalho de prevenção
entre setembro e dezembro do ano passado, para ter condições
mínimas de chegar aqui em uma posição mais
confortável. A determinação é intensificar
essas ações a partir de agora para conseguir manter
o controle durante o ano”, explica o coordenador.
Celular
A partir de hoje, usuários de celular de todo o país
passarão a receber dicas para se prevenir da dengue por
mensagens SMS. Os torpedos serão enviados semanalmente,
quando o Ministério da Saúde fecha o balanço
de notificações, a municípios que registrarem
alto índice de transmissão ou muitos casos graves.
Propagandas na TV e no rádio e um site para tirar dúvidas
também estão entre as ações de prevenção,
resultado de um investimento de R$ 40 milhões do Ministério.
O governo fez também parcerias com lideranças sindicais,
religiosas e empresas, para evitar que o país perca novamente
o controle da doença. “O ministro está visitando
cada um dos 16 estados em risco, fazendo reuniões e analisando
as estratégias”, diz o secretário
Jarbas Barbosa.
Com jeito de gripe
A prioridade das campanhas contra a dengue este ano é fazer
as pessoas entenderem a importância das ações
para evitar o aparecimento de qualquer foco do Aedes aegypti.
O descuido de vizinhos pode ter sido a causa dos maus momentos
passados por Patrícia Mendonça, 21 anos. A estudante
de biomedicina teve de enfrentar os sintomas da dengue em meados
de janeiro. Com febre alta e muitas dores no corpo, ela procurou
o médico, que inicialmente pensou ser uma gripe forte,
mas pediu exames mais detalhados para diagnosticar a doença
corretamente. Apesar de morar em um apartamento, ela acredita
que tenha sido picada pelo mosquito no próprio prédio. “Alguns
vizinhos têm vasos de plantas que podem ter facilitado
o aparecimento do mosquito”, analisa a estudante.
O secretário de Vigilância em Saúde, Jarbas
Barbosa, lembra que boa parte da população não
tem o compromisso de reiniciar as ações de prevenção
todos os anos, principalmente na época de chuvas, período
favorável para proliferação de larvas. “A
maioria já sabe o que fazer, mas acaba não tomando
os devidos cuidados porque acha que o vizinho não contribui.
Queremos desenvolver a cultura da mobilização contra
o mosquito”, afirma. (AES)
Alvos da campanha
Uma portaria do Ministério da Saúde obriga, desde
o fim de janeiro, estados e municípios a enviarem em até 24
horas notificações sobre casos graves e mortes
suspeitas por dengue. Devem ser registrados diariamente, também,
os casos da dengue tipo 4 (DENV 4). A atenção é reforçada
em relação ao DENV 4 para evitar uma possível
epidemia. “Uma vez que uma pessoa pega dengue, ela fica
imune para o tipo de vírus que a contaminou. Como o tipo
4 nunca circulou no Brasil de forma ampla, ninguém está protegido”,
explica a infectologista Valéria Paes Lima.
Crianças e adolescentes também são foco
nas campanhas devido ao tipo 1 da doença, que segundo
Jarbas Barbosa, volta a provocar a dengue no Brasil após
15 anos de aparições esporádicas. “Quem é mais
novo está sujeito ao vírus, aumentam as chances
de que os casos se tornem graves e resultem em mortes”,
diz o secretário de Vigilância em Saúde.
Não há como identificar a diferença entre
os dois tipos de dengue sem fazer exames laboratoriais. O recomendado
pelos médicos é procurar um hospital assim que
começarem os sintomas, até mesmo se a pessoa já tiver
sido contaminada uma vez. “Quando alguém pega dengue
pela segunda vez, a doença vem mais forte e crescem as
chances de evolução para o quadro hemorrágico”,
alerta a infectologista. (AES)
Correio Braziliense
Mosquitos "vacinados" agem contra a dengue
Pesquisadores usam micro-organismo achado na mosca-das-frutas
para bloquear a transmissão do vírus no Aedes aegypti.
Em 2010, doença atingiu 900 mil brasileiros
Por Paula Sarapu
Uma pesquisa desenvolvida pela Universidade de Queensland, em
Brisbane, na Austrália, acena para a possibilidade de
se controlar a transmissão do vírus da dengue.
Quarenta cientistas do mundo inteiro participam do trabalho de
microinjeção de embriões — que deixam
o mosquito Aedes aegypti mais resistente à dengue e, portanto,
dificultam a transmissão — e um brasileiro, de Belo
Horizonte, acredita que o país também tenha potencial
para desenvolver o estudo. Para o pesquisador do Laboratório
de Malária do Centro de Pesquisas René Rachou da
Fundação Oswaldo Cruz em Minas Gerais (CPqRR/Fiocruz),
Luciano Andrade Moreira, a descoberta, aliada à conscientização
da população, pode acabar com a epidemia de dengue
no Brasil a médio e longo prazo.
Os estudos começaram há sei
s anos, quando cientistas
australianos decidiram injetar em ovos do Aedes aegypti a bactéria
Wolbachia, encontrada nas moscas-das-frutas, as drosófilas.
Só para conseguir introduzir a bactéria nos ovos
foram quatro anos de testes. Os especialistas descobriram que
a bactéria causava a morte prematura das drosófilas
e o mesmo conceito foi aplicado ao mosquito transmissor da dengue.
Assim, os pesquisadores conseguiram reduzir a longevidade do
inseto infectado com a doença.
“
A ideia era fazer o mosquito morrer logo, para não transmitir
o vírus da doença. Mas descobrimos outras implicações
para a cadeia alimentar e o meio ambiente e, por isso, há dois
anos, começamos a trabalhar com a bactéria de outra
forma, apenas bloqueando a transmissão da dengue, sem
que o mosquito precisasse morrer. É como se o mosquito
fosse vacinado e ficasse resistente ao vírus”, explica
o pesquisador do CPqRR/Fiocruz.
Dez mil ovos foram usados nos testes ao longo de seis anos,
mas apenas duas larvas fêmeas conseguiram se tornar adultas
e procriar. Segundo o cientista mineiro, toda a linhagem de mosquitos,
a partir dessa geração, terá a bactéria
em suas células e estará “protegida” da
dengue. “Se esse projeto der certo, será suficiente.
A partir do mosquito solto na natureza, a bactéria é transmitida
mais facilmente, aumentando a prole protegida que invade a população. É um
grande passo no combate à dengue e, com ações
conjuntas, pode ser a salvação.”
O ciclo do mosquito não é longo. O Aedes aegypti
demora 15 dias para se tornar adulto. Depois de cruzar, a fêmea
pica o humano e suga o sangue para poder procriar, o que ocorre
quatro ou cinco vezes ao longo de sua vida. De acordo com Luciano
Andrade, cada fêmea põe cerca de 500 ovos em 30
dias, tempo médio de vida do inseto. Durante os estudos
na Austrália, apenas 30% dos 10 mil ovos que receberam
a bactéria Wolbachia nasceram. A maioria, segundo Luciano,
estourava. Das larvas, porém, 90% não apresentavam
a bactéria e muitas também ficavam estéreis.
Na segunda etapa da pesquisa, os especialistas escolheram dois
subúrbios da cidade de Cairns, no Nordeste da Austrália,
em localidades confinadas por canaviais e com casos de dengue.
A partir de agora, a cada semana, por um período de 12
semanas seguidas, 10 insetos infectados com a bactéria
serão soltos em cada uma das residências. Depois, é só esperar
a dispersão dos mosquitos e a disseminação
da infecção pela bactéria. “Já são
70 gerações de mosquitos com a bactéria.
Agora estamos no processo de liberação desses insetos
na natureza e, até o meio do ano que vem, já teremos
resultados”, acredita.
A concepção e o desenvolvimento do projeto custaram
US$ 18 milhões. Na Austrália, país que não
tem epidemias de dengue, são apenas mil casos por ano — o
Brasil registrou cerca de 900 mil casos em 2010.
Exportação
Alguns mosquitos “vacinados” seguem em setembro para
o Vietnã, país que se assemelha ao Brasil em números
de casos, guardadas as proporções do tamanho do
território e da população. O pesquisador
da Fiocruz Minas Luciano Andrade Moreira já solicitou
ao Ibama autorização para trazer ao Brasil mosquitos
infectados com a bactéria Wolbachia. Ele aguarda a decisão
para dar início aos estudos de laboratório. Em
2011, os cientistas vão desenvolver o mesmo trabalho na
Tailândia.
Luciano é engenheiro agrônomo e doutor em genética.
Ele foi convidado a participar das pesquisas por dois anos e
meio, em seu pós-doutorado, e voltou ao Brasil em janeiro,
com a expectativa de conseguir desenvolver o trabalho e apresentar
a sugestão ao Ministério da Saúde, por intermédio
da Fiocruz. “Nosso país tem um grande potencial
para desenvolver essa pesquisa, mas precisamos avançar
muito ainda.”
O cientista mineiro destaca os desafios de se desenvolver o
estudo no Brasil. “Precisamos fazer estudos em laboratório,
que devem demorar pelo menos dois anos, e pedir autorização
do Ministério da Saúde para as outras fases do
projeto”, diz. “O Aedes aegypti não é encontrado
infectado na natureza. Por isso, é preciso avaliar o impacto
ambiental e viabilizar um lugar no país para a liberação
desses insetos com a bactéria. Precisa ser um local que
não tenha muitos casos de dengue, que seja mais isolado
e não registre migração de pessoas. Também
precisamos da aceitação da população,
da aprovação das autoridades e de financiamento.
O estudo é só o ponto de partida”, afirma
o pesquisador.
PARA SABER MAIS
Mortes aumentam
Em 2010, as vítimas da dengue dobraram no país.
Em relação ao ano anterior, houve um aumento de
89,7% no número de casos, de acordo com resultado parcial
do Levantamento de Índice Rápido de Infestação
por Aedes aegypti 2010, divulgado em novembro. De janeiro até 16
outubro, foram registrados 936.260 casos contra 489.819 no ano
passado. No mesmo período, a doença levou à morte
592 pessoas. Em 2009, foram 312 casos fatais.
Para Luciano Andrade, ainda que o projeto dê certo, não
se pode descartar o uso do inseticida, as campanhas sociais de
educação da população e até a
criação de uma vacina contra a dengue.
Correio Braziliense
Remédio de graça. Só falta a prevenção
Presidente
Dilma Rousseff anuncia a liberação,
a custo zero, de medicamentos para hipertensão e diabetes,
mas especialistas alertam também para a conscientização
da população
Por Leandro Kleber / Juliana Boechat
Com o anúncio de que os medicamentos contra hipertensão
e diabetes serão distribuídos gratuitamente pelo
governo no programa Aqui Tem Farmácia Popular, os 960
mil usuários cadastrados no projeto, que antes pagavam
10% do valor dos remédios, agora não desembolsarão
nada. A presidente Dilma Rousseff e o ministro da Saúde,
Alexandre Padilha, anunciaram a medida ontem, no Palácio
do Planalto, e também comemoraram a marca de 15 mil estabelecimentos
credenciados em todo o país onde os remédios serão
distribuídos. A promessa é que as farmácias
serão mais fiscalizadas para evitar desvios e abusos.
Especialistas elogiam a medida, mas lembram que é preciso
haver mais campanhas de conscientização sobre como
agir ao descobrir as doenças.
Para ter acesso aos remédios, os usuários deverão
apresentar documento com foto, CPF e receita médica de
um profissional do Sistema Único de Saúde (SUS)
ou de um médico particular no balcão da farmácia
conveniada. As medidas deverão ser implementadas pelos
estabelecimentos cadastrados até o próximo dia
14, período concedido para adaptação dos
sistemas de vendas.
De acordo com o Ministério da Saúde, o programa
tem um orçamento de R$ 470 milhões e beneficia
ao todo 1,3 milhão de brasileiros. “Esse compromisso
(gratuidade dos remédios) não terá nenhum
custo adicional ao ministério. Convencemos o setor privado
de que era importante reduzir as margens de lucro. Foi possível
fazer esse grande acordo”, disse Padilha. O ministro aproveitou
o evento para destacar a presença do governador do Distrito
Federal, Agnelo Queiroz (PT). “Eu acredito muito, inclusive,
que o governador Agnelo Queiroz vai colocar a saúde em
ordem em Brasília. Nós seremos parceiros nisso.
Desde o primeiro dia do seu governo ele já nos procurou
no Ministério da Saúde e começamos a construir
parcerias, por exemplo, para agilizar a execução
das UPAS no DF.”
Com exceção dos medicamentos para diabetes e hipertensão,
que a partir de agora passam a ser gratuitos, o governo federal
financia 90% do valor de referência dos outros medicamentos
no Aqui Tem Farmácia Popular, que incluem mais cinco doenças
(asma, rinite, mal de Parkinson, osteoporose e glaucoma), além
de fraldas geriátricas.
Dilma ressaltou que os medicamentos são o item de maior
peso no bolso das famílias mais humildes. Segundo ela,
12% da renda da população mais pobre são
gastos com remédios, enquanto nas camadas com poder aquisitivo
maior a mesma despesa representa 1,7%. “Não podíamos
admitir que esse ônus de origem social colocasse em risco
a vida de portadores pobres de disfunções para
as quais a medicina já tem tratamento seguro e garantido.”
O diretor de relações governamentais da Associação
Diabetes Juvenil (ADJ Brasil), Sérgio Metzger, lembrou
que não adianta apenas distribuir o medicamento de graça.
Segundo ele, é preciso conscientizar a população
sobre como usar os medicamentos e, especialmente, em relação à prevenção.
Assim que acabou o evento, a presidente Dilma Rousseff fez uma
rápida avaliação sobre seu primeiro mês
de governo: “Eu acho que o primeiro mês foi de muito
trabalho e acredito que é uma indicação
da quantidade de trabalho que eu tenho nos próximos”,
comentou.
Encerrada a solenidade, o governador Agnelo Queiroz prometeu
ampliar a quantidade de farmácias credenciadas para distribuição
de remédios aos pacientes da rede pública da capital.
Atualmente, há 288 estabelecimentos autorizados a entregar
os medicamentos gratuitamente à população. “A
hipertensão e a diabetes são patologias que atingem
uma grande quantidade de pessoas que necessitam da farmácia
popular. Nada mais justo expandir a gratuidade dos medicamentos”,
defendeu. O petista acredita que, com a expansão da rede
autorizada, os pacientes poderão buscar o auxílio
perto de casa.
Agnelo não detalhou como será feita a ampliação
do sistema no Distrito Federal. Mas, segundo ele, o projeto sairá do
papel com ajuda de parcerias nacionais. Desde que assumiu o Executivo
local, o petista se reuniu duas vezes com Padilha para pedir
recursos ao GDF. “Além de unidades exclusivas da
farmácia popular, também vamos colocar postos dentro
da rede privada de hospitais. Hoje, são poucas farmácias
espalhadas pelas cidades do DF”, avaliou.
Folha de São Paulo
População obesa dobrou em 3 décadas
Mundo já tem meio bilhão de pessoas gordas demais,
mostra pesquisa que envolveu 199 países e territórios
EUA puxam a alta no mundo desenvolvido; no Brasil, níveis
de massa corporal também estão aumentando
Por Débora Mismetti (editora-assistente de saúde)
Com os Estados Unidos liderando a tendência, a obesidade
no mundo dobrou entre 1980 e 2008, de acordo com uma pesquisa
global publicada hoje no "Lancet".
Há 31 anos, 4,8% dos homens e 7,9% das mulheres tinham índice
de massa corporal acima de 30, o que configura obesidade.
Três anos atrás, 9,8% dos homens e 13,8% das mulheres
já tinham passado dessa marca. Assim, mais de um adulto,
em cada grupo de dez, está obeso.
O estudo, conduzido por pesquisadores do Imperial College London
e de Harvard, com apoio da Organização Mundial
da Saúde (OMS) e da Fundação Bill e Melinda
Gates, é dividido em três partes: obesidade, pressão
arterial e colesterol.
Foram pesquisados dados de 199 países e territórios,
desde 1980 até 2008.
O Brasil acompanhou a tendência de alta da proporção
de gordos.
A China também é destaque, com aumento do índice
de massa principalmente entre os homens.
MENOS SONO
Apesar de os hábitos alimentares terem muito a ver com
isso, os processos de urbanização e automatização
têm culpa maior, segundo o endocrinologista Bruno Geloneze,
coordenador do laboratório de metabolismo e diabetes da
Unicamp.
"
O gasto energético foi muito reduzido. Não precisa
ir muito longe. Sua bisavó, quando tomava suco, espremia
a laranja. Hoje, é só abrir a geladeira."
Outra questão importante é a privação
de sono. De acordo com Geloneze, de 50 anos para cá, o
mundo está dormindo duas horas a menos por noite, o que
tem ligação direta com o peso.
"
Há uma desregulação do gasto energético,
da produção de hormônios da saciedade e uma
ativação da glândula suprarrenal, que faz
adrenalina e cortisol. Tudo isso facilita o ganho de peso",
diz o endocrinologista.
Os Estados Unidos, país que liderou a alta da obesidade,
vem tentando atacar o problema com incentivos à alimentação
saudável e à prática de exercícios.
De acordo com Geloneze, essas medidas são mal orientadas,
porque dão peso muito grande para alimentação
e esportes. "Não pode algo pró-esporte. As
atividades físicas não programadas, como deslocamentos,
pesam mais. O importante é que as cidades permitam que
a pessoa ande de bicicleta, a pé."
O consumo de alimentos processados e a ocidentalização
da dieta dos orientais contribuem para o fenômeno. O mundo
está abandonando a comida in natura em favor da processada,
com densidade de calorias muito maior.
A dificuldade de combater o ganho de peso é maior do que
a enfrentada na redução de hipertensão e
colesterol, que podem ser mais facilmente controlados com medicamentos. "A
obesidade envolve consumo alimentar, muito ligado à emoção
e estilo de vida. Não há pílula mágica
para tratar isso."
ANÁLISE
É
preciso reverter a tendência para aumentar a longevidade
Por Ricardo Meirelles, presidente da Sociedade Brasileira de
Endocrinologia e Metabologia e professor de endocrinologia
da PUC-RJ
ESPECIAL PARA A FOLHA
Já tínhamos conhecimento de que o excesso de peso
e a obesidade tornam-se mais frequentes no mundo, mas não
havia ainda uma pesquisa que apresentasse dados coletados de
tantos países -e com uma análise evolutiva de quase
30 anos. Embora o IMC (índice de massa corporal) não
seja o único nem o melhor indicador, é o mais utilizado
em avaliações de grandes amostras, pela facilidade
de sua determinação e sua associação
com doenças ligadas ao excesso de adiposidade.
A constatação de que o IMC aumenta a cada década é preocupante
porque pode significar o aumento do risco de mortalidade por
diabetes e suas complicações, doenças cardiovasculares
e certos tipos de câncer.
É
interessante notar que, embora haja aumento da prevalência
de obesidade e, portanto, da mortalidade a ela associada, a expectativa
de vida tende a crescer na maioria dos países. Significa
que outras causas de mortalidade estão diminuindo. Se
conseguirmos evitar o avanço da obesidade, teremos um
aumento maior ainda da longevidade das populações.
Com exceção dos homens da África Central
e do sul da Ásia, pessoas de todas as regiões
do planeta registraram aumentos do IMC.
Isso talvez se deva ao maior acesso a alimentos e à diminuição
de atividade física, ocasionada pela disseminação
do uso de máquinas para fazer trabalhos antes manuais
e a melhoria do transporte. Possivelmente, também,
reflete uma globalização dos hábitos
alimentares. Um exemplo é a presença de cadeias
de fast food em todos os continentes. Houve grandes diferenças
na variação
de IMC entre diversas regiões e entre os sexos.
O estudo dessas diferenças geográficas, econômicas
e culturais pode ser útil na elaboração
de políticas de saúde voltadas à prevenção.