O Globo - 06/02/11
Entre
tubarões
e chupins
Por Ligia Bahia
Quanto se
paga pelo atendimento à saúde é assunto
delicado. A solenidade investida nas ações e cuidados
assistenciais desautoriza a busca de melhor qualidade por menor
preço. As bases de confiança mútua, a confidencialidade
das relações entre profissionais de saúde
e pacientes e a complexidade e prolongamento dos cuidados tornam
as contas difíceis de entender. Mesmo no sistema público,
vigem regras de etiqueta específicas, mas não radicalmente
opostas. Falar à vontade sobre os baixos salários
dos contratados pelas secretarias de Saúde e dos irrisórios
valores de determinados procedimentos não é sinal
de deselegância. Mas, a exposição de cifras
para por aí. Não fica bem juntar na mesma fatura
o que se paga com o que se faz. Tantas mesuras contrastam com
a publicidade das contas da saúde nos sistemas de saúde
de outros países, nos quais custos e preços deixaram
de ser misteriosos.
Sabemos que
há planos e planos de saúde e o SUS.
Mas preferimos nos ater a controvérsias sobre quem paga
a revelar que os cartões de planos autorizam o pagamento
de valores de remuneração muitos diferenciados
para quem nos atende. No SUS, o preço do tratamento depende
do problema e do procedimento recomendado. Nos serviços
privados o tipo de plano, ao qual se acopla a remuneração
de valores múltiplos para exames, consultas médicas,
internações e tratamentos, modula o acesso. Esses
rótulos invisíveis, mas potentes, introduzem critérios
de precificação exteriores ao trabalho despendido
e uso de recursos diagnósticos ou terapêuticos.
Dois pacientes com o mesmo problema e igual tratamento valem
meia, uma, duas, oito vezes mais.
Essa estratificação pré-paga (parênteses
para esclarecer que não se trata de valores livremente
negociados entre particulares e sim contratados institucionalmente) é uma
das marcas do nosso sistema de saúde Não estamos
divididos apenas entre quem está vinculado ou não
a planos privados e os valores maiores ou menores embutidos nas
coberturas, na maioria dos casos, somam o que sai do bolso dos
indivíduos com outras formas de financiamento. Parte dos
gastos com planos é proveniente do aporte de empresas
empregadoras. Outra parcela é bancada pelos orçamentos
familiares. Como os gastos das firmas com saúde são
repassados aos produtos e as pessoas jurídicas e físicas
os deduzem dos impostos devidos sem limite de abatimento, todos
pagam tudo, embora diferenciadamente. Quem tem plano não
o custeia integralmente e paga impostos que financiam o SUS,
e quem não tem auxilia o pagamento de planos melhores
e piores que jamais utilizará. Deve-se consignar ainda
que o não ressarcimento ao SUS converteu-se em uma insidiosa
fonte de subsídios públicos aos planos privados.
Recentemente,
um dos grandes empresários do setor, ao
buscar explicar seu sucesso no mundo dos negócios, declarou
preferir acompanhar tubarões a cardumes de sardinhas.
A imagem de um animal ágil e perigoso adequa-se bem ao
conjuntural processo de fusões e aquisições
e capitalização de hospitais, laboratórios
e empresas de planos de saúde. Mas quem melhor representa
as transações rotineiras de amealho de recursos
para os planos de saúde é o chupim, conhecido pelo
hábito de colocar seus ovos no ninho de outras aves, para
que as mesmas os alimentem como filhotes. Pseudoesmolas doadas
pelo privado ao público — tais como as cotas de
procedimentos e a abertura de 25% vagas nos hospitais universitários
e agora na rede pública de São Paulo —, em
vez do ressarcimento, inspirar-se-iam nas práticas do
chupim.
Enquanto
que novas alianças políticas, que escoram
a concessão de planos privados de saúde para funcionários
públicos nas três esferas de governo, e aquelas
pretéritas — baseadas na concessão de atendimento à saúde
em troca de rebaixamento dos reajustes de salário para
trabalhadores do setor privado e das estatais—, seriam
obtidas a dentadas de tubarões.
Absorvemos
melhor e há mais tempo os preceitos relativos
ao direito universal à educação, embora
falte muito que fazer. Há limites no imposto de renda
para deduções com escolas privadas e não é admissível
deixar estudantes de estabelecimentos particulares nas portas
de estabelecimentos governamentais no meio do semestre, nem repassar
o ensino de uma disciplina custosa ou reservar 25% das vagas
das universidades públicas para quem pode pagar.
Em relação à saúde,
a confusão
induzida soterra nossos compromissos de solidariedade constitucional.
Esse fenômeno artificial, mas nem por isso indene, impõe
uma dupla tarefa: remover o entulho retórico e incluir
na agenda de debates sobre a reforma tributária a correção
de iniquidades fiscais. Temos exemplos de sobra. No ano passado,
em meio a muita polêmica, os EUA aprovaram a revisão
da destinação dos subsídios públicos
para a saúde.