À ESPERA DO DIÁLOGO
*Jairo Rocha
 

Preocupa que ao longo de todo o primeiro turno todos os debates feitos com os candidatos à presidência da república e mesmo suas participações em entrevistas e no horário eleitoral, suas propostas para a saúde tenham sido de forma muito superficial. Nenhum deles abordou os reais dilemas do setor, logo não apresentou projetos e ideias que mostrem para a sociedade que a saúde será uma prioridade. Há, na verdade, aquele discurso demagógico de prometer mais investimentos e melhores salários. Ouvimos isso de quatro em quatro anos. Não há nada de novo.

Entretanto, a verdade é que o segmento enfrenta desafios que não serão superados com falsas promessas a análises simplistas. Há anos, por exemplo, laboratórios de todo o país aguardam o reajuste da Tabela do Sistema Único de Saúde para exames laboratoriais. Talvez, boa parte da sociedade não saiba, mas são os pequenos e médios laboratórios privados, principalmente no interior do país, responsáveis pela realização de exames da população.

É um atendimento que responde por até 70% dos exames laboratoriais nesses locais, desempenhando o papel que seria do braço público, que, porém, muitas vezes inexiste nessas regiões. No entanto, a defasagem de preços pagos pelo SUS coloca em risco a sustentabilidade dos empreendimentos.

Para que se tenha uma ideia das dificuldades que são enfrentadas, o SUS paga aos laboratórios R$ 1,85 por um exame de glicose. Já pelo hemograma, as empresas recebem R$ 4,11. Em nenhum dos casos o valor repassado representa nem metade do real custo do exame. Há preços que estão congelados desde o ano de implementação do Plano Real, em 1994.

Os grandes laboratórios ainda conseguem manter as atividades, mas, os médios e os pequenos, que são a grande maioria presente pelo país, não. As empresas não conseguem arcar com os custos de ruas, como folha de pagamento e manutenção de equipamentos. Se não houver reajuste, os laboratórios vão continuar a fechar as portas, o que não é positivo para o setor e para a população brasileira.

O que o segmento espera e quer é que os candidatos que farão o segundo turno apresentem propostas estruturadas que incluam a parceria com os laboratórios particulares. Até hoje o setor privado realiza o seu papel, apesar de sofrer com a falta de recursos que os valores defasados provocam. Um posicionamento dos pretendentes ao cargo mais importante do país é uma manifestação de atenção e preocupação com serviços que são essenciais para a boa prática da medicina. Não há como se pensar em prevenção ou em políticas públicas de saúde, se a população não tiver acesso a procedimentos básicos como um exame de glicose.

E se boa parte da população tem como realizar um exame de urina ou de sangue, deve-se ao atendimento que os laboratórios privados fazem ao SUS. Ignorar o impacto que o congelamento dos preços tem no setor representaria para os candidatos a demonstração de descaso com a sustentabilidade dos laboratórios e, principalmente, com o bem estar da população.

Em longo prazo, o cenário pode levar à cartelização do setor e à taxação de preços em exames que podem impactar diretamente o bolso do consumidor. Caso não haja providências, apesar de não ser a ideal, a única saída será o setor terminar por não mais prestar serviços ao SUS, sob pena de ter que encerrar as atividades por insolvência financeira.

Não há como se manter a situação atual por muito mais tempo. O diálogo que o setor propõe é para que se possa garantir o repasse justo pelos serviços prestados. Não há reivindicações absurdas, apenas condições de que as empresas tenham tranquilidade na hora de fechar as contas no fim do mês. A saúde financeira é necessária para que se possa investir em tecnologia, melhores salários, novos exames e contratar mais profissionais, para que assim a população tenha sempre serviços de qualidade à disposição.

*Presidente do Sindicato dos Laboratórios de Patologia e Análises Clínicas do Estado do Rio (Sindilapac-RJ)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 
 
 
 
 





 
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